sexta-feira, 10 de agosto de 2007

EDIFÍCIO PARAOPEBA

Atenção: O texto a seguir é muito bom,
mas é inapropriado para pessoas que se encontram no horário de trabalho e / ou se enquadram nas situações que se seguem: estão com pressa, dificuldade de concentração, vista cansada, problemas na coluna, sede, fome, dificuldade de retenção de líquidos e sólidos no organismo, sem paciência, com raiva,
ansiosas, depressivas, ... acho que só... :-)

> paródia às placas de advertência existentes em parques de diversão nos USA<



Hoje eu estava deitada com minha cachorrinha e, de repente me vieram mil idéias sobre coisas legais pra escrever no blog. Mas sabe quando as idéias vêm assim, uma frase inteira, um texto inteiro? Gostaria que inventassem [seria muita pretensão da minha parte inventar] uma maquininha à prova d’água pra gravar idéias, pensamentos... Porque às vezes eles são tão velozes, vêm em certos momentos que não tem como anotar, fazer lembretes, nada! [comigo é no chuveiro!] Imagina sair do chuveiro ensopada, ensaboada, tateando por papel e lápis, não dá mesmo!!


E, bom.... me veio à mente um texto sobre *sofreguidão amorosa* que se linkou a uma imagem, na verdade, a uma cena que eu havia presenciado há cerca de 10 ou 15 anos atrás ... [muita coisa, hein?] Aquela cena ficou guardada na minha mente, na minha retina e, volta e meia, durante este tempo ela ia e vinha. E eu pensava ... Foi uma cena tão forte, tão intensa ... Eu PRECISO escrever algo sobre isso! E logo! antes que a cena se disvirtue, se apague...



A cena era uma coisa assim meio surreal... Imagine e me siga:
Rio de Janeiro, manhã de um dia de semana. Estou eu em um ônibus que atravessa a zona sul com destino à Gávea. Este ônibus pára no sinal. Eu, então olho pela janela à minha direita e vejo um vai e vem terrível de gente, carros, gente carregando coisas...



O bairro é botafogo [ou seria flamengo?].
O horário: entre 9 e 10 horas da manhã de um dia de semana. [Pela agitação arrisco-me a dizer que seria talvez uma segunda-feira ou uma sexta-feira.]
Cenário: calçada estreita e movimentada, rua esburacada em frente a um prédio cujo nome não esquecerei tão facilmente: EDIFÍCIO PARAOPEBA.
[Lembro-me de que, após assistir a cena, a primeira coisa que fiz foi olhar ao redor na tentativa de procurar um marco e o que vi não foi nem o Mc Donalds nem o Bob’s mas o nome do Edifício!]



A cena era a seguinte:
ZumZumZum, gente passando.. A porta do edifício, - daquelas pesadas, de ferro com arabescos e com vidro - se entreabre...



Vejo um rapaz. Não, era um homem, jovem; de terno escuro e camisa social branca; cabelos curtos, escuros e bem-cortados; pasta na mão. Ele sai, mas de costas, como se estivesse sendo retido; como estivesse ainda falando com alguém. Não dá pra ver quem é. Ele então se desvencilha, e dá dois passos para fora do edifício, girando o corpo na direção da saída.



No meio do tumulto de vozes, buzinas, gritos ele pára. Parece que ouve um som e se volta na direção da porta. Alguém o chamou. Eu o estou acompanhando.



Volto para olhar o que ele procura. Junto à porta vejo somente um rosto de mulher. Ela é ainda jovem, cabelos louros, pele clara, cara de quem acordou faz pouco tempo, sem batom, sem penteado produzido, apenas o suficiente pra não parecer desgrenhada. Ela olha pra ele como se ignorasse tudo o que se passa ao redor – a agitação, o barulho, o tumulto e – principalmente, a pressa dele, a urgência dele em ter que sair dali pra chegar a outro lugar [que eu não sei, mas parece importante]. Eles se olham. Ele vê tudo o que se passa ao redor. Ela só vê ele.



Ele então volta. Aproxima-se da porta. Chega perto do rosto dela – que é tudo o que vejo – e dá-lhe um beijo rápido na boca. Os rostos se afastam.



Mas ela parece sedenta, sôfrega. Parece que este beijo, - assim como os outros que provavelmente eles devem ter trocado antes de ele sair pela porta, - e os outros, imagino eu, que trocaram no percurso da porta do apartamento, corredor, hall do edifício, até que chegassem àquela porta ... nenhum destes beijos parece ter sido sufiente para ela. Ele então, ali, na porta, faz menção de afastar-se, como se já estivesse partindo.



É então que acontece: ela sai. Ela sai. Abre a porta, mas não toda. E sai do prédio. Dá cerca de 3 a 4 passos para fora, para o meio da rua... Preciso descrevê-la.



Ela está usando nada mais nada menos que uma camisola cor marfim e um negligee da mesma cor, esvoaçante, etéreo, transparente... Parece uma figura que saiu do sonho de alguém ... Como se fosse uma daquelas ninfas que aparecem em filmes, como no Senhor dos Anéis.. Então esta mulher loura, ainda jovem, cabelos louros, longos, meio desbotados, sai do prédio, vestida deste jeito, com o olhar fixo no homem jovem como se não existisse mais nada nem ninguém ao seu redor... como se o mundo tivesse acabado e só houvesse ele e ela. Ela se aproxima dele com aquele olhar penetrante. Estende suas as mãos em direção ao rosto dele, enlaçando-o pelo pescoço, suavemente. As mãos dela se prendem ao rosto dele e, então, é neste momento que ela lhe dá o beijo mais sôfrego que eu já vi. E não falo de sofreguidão cinematográfica, coisa sofrida, desesperada. Falo de um sentimento verdadeiro.



Parecia que ela estava com sede, muita sede e ele era o pote com o último gole de água...



Ela agarra, beija, suga... E ele ... para falar a verdade, não me lembro. Não me recordo se ele relutou como se faltasse ar. Se ele se entregou como objeto de paixão. Se ele se aborreceu. Se ele achou engraçado, hilário, cômico. Não sei dizer .. Infelizmente. Porque ele estava quase que totalmente de costas pra mim neste momento. E eu me fixei nela... com todo aquele negligeé transparente no meio do caos caótico que é este bairro de flamengo [ou botafogo?].



Ela então dá este beijo que parece que tem que ser dado ou ela vai ter um troço.



A impressão é de que eles não se verão por muito tempo... E de que também não se viam há muito tempo quando se encontraram na noite anterior... E agora? Agora, ela tem que deixá-lo ir.... Pelos movimentos do corpo dele – ele precisa ir... Talvez não queira, não sei dizer – mas ele precisa... E ela? Ela? Ora, por ela, ela largava tudo pra ir atrás dele. Faria qualquer coisa para evitar que este compromisso fosse inadiável. Talvez ... Talvez seja isso mesmo... ele tenha precisado partir antes da hora. Por isso esta sofreguidão, esta aflição... Era como se alguém o estivesse roubando dela por momentos preciosos que lha pertenciam.



Depois do beijo? O que aconteceu? Você quer saber...



Depois do beijo seguiram-se outros pequenos intensos beijos.. Ela não queria deixá-lo ir.. Ele, por fim, segurou-lhe as mãos que ainda se encontravam presas a seu rosto e olhou-a fixamente nos olhos... Mexeu os lábios [sim, consegui ver isto porque eles mudaram de posição, agora estavam de perfil, de lado pra mim] Ele mexeu os lábios e disse qualquer coisa. Ela então, que estava olhando fixamente pra ele, olhos abertos, bebendo seu olhar, baixou as pálpebras, os olhos, sem baixar o rosto, naquela expressão de aceitação resignada de quem já usou todos os artifícios para impedir a partida, mas tem que aceitar que ela é inevitável... Eles então trocam um último beijo, intenso mas rápido.



E ele então se afasta... Ela o acompanha com o olhar. E observe só...



Bastou ele se afastar um pouco mais e ... foi como se o encanto parcialmente se quebrasse ... as pessoas voltaram a existir ao redor dela. Ela então se dá conta do caos, do movimento, da agitação do barulho... Da vida real – eu diria... pois ela estava quase que envolvida em um transe hipnótico... E notando isso tudo, ela olha discretamente ao redor, fecha o negligee rapidamente, mas sem perder sua aura de tranqüilidade e paixão. Não, ela não fecha como se tentasse se esconder e a tudo o que fez até então. Ela fecha como se estivesse se protegendo do frio...



[Sabe, nos filmes quando aparece uma cena de uma família que saiu de pijamas e roupão no meio da rua porque a casa estava em chamas? Eles focam a mãe, ela esta envolta em um roupão; de um lado está o marido, do outro os filhos... Ela então fecha o roupão em um gesto de quem sente frio enquanto observa a cena... Eu arriscaria dizer que é como se fosse uma espécie de movimento, de gesto que se faz quando alguém está diante de uma sensação de perda. É isso! Como se aquele roupão abraçando o seu corpo fosse transmitir alguma sensação de calor, de carinho, de conforto, de consolo. É exatamente isso!]


Então ela faz este gesto, mas não se curva, continua ereta. Cruza ligeiramente os braços na frente do corpo e leva a mão direita em direção aos lábios. E fica olhando para o homem jovem partindo... No rosto, aquela expressão de “queimaram a minha casa”, uma das mãos cobre os lábios, o olhar parado, acompanhando-o enquanto ele se perde no movimento de pessoas, buzinas, barulho, caos.


Mas isso é tudo muito rápido... A partir do momento em que ele se afasta, ela sai do transe, negligee, olhar, mão, boca e ... Snap... foi como se um diretor imaginário gritasse “Corta! Valeu!”.



Foi assim... De repente ela já está dando as costas para a cena e voltando para a porta e desaparecendo com seu negligee marfim esvoaçante ... É neste momento que eu olho ao redor. Vejo o nome do edifício... Mas agora, enquanto escrevo, suspeito que o que eu verdadeiramente procurava era a equipe técnica.. Onde estão as câmeras? Porque esta cena me pareceu tão surreal... tão surreal que .. durante todos estes anos eu nunca pude esquecê-la e nunca consegui descrevê-la com tamanha intensidade como hoje... Nunca consegui sequer escrever uma linha sobre ela... Mas ela sempre voltava à minha mente e tinha um post it nela dizendo:



*Cena do Edifício Paraopeba. Preciso escrever sobre isso!!*



Bom, o dia chegou. Então hoje eu escrevi. Missão cumprida. Agora, nem eu sei o que vai acontecer... Talvez esta lembrança vá pra um local empoeirado da minha mente, uma espécie de arquivo-morto, de onde só será ressussitada se eu voltar a ler este texto daqui a algum tempo... A cena então voltará, vívida como nunca, e eu saberei que fiz um texto bom sobre ela se, ao lê-lo, ele trouxer de volta à minha memória tudo o que eu senti quando a presenciei. E vou me sentir quase até como uma escritora porque será como se eu estivesse lendo um daqueles poemas intensos, escritos por poetas consagrados. Aqueles certos poemas que você lê e sente algo indizível. E tamanha é a sua identificação com o texto lido, que sente como se ele estivesse sido escrito para você. E até pensa: Eu gostaria de ter escrito isso!!



Bom, se você conseguiu chegar até aqui, obrigada! Espero que tenha reconhecido algum momento seu ao ler meu texto! E, se por acaso já ouviu falar de alguém que tenha um gadget que grava pensamentos nossos enquanto estamos no chuveiro, não hesite em me avisar! A qualquer hora! :-)

By Barbarella

3 comentários:

Flávia disse...

Li seu texto lá no blog do Oscar, e resolvi passar pra conhecer a garota que embarcou naquela aventura divertida de amor.
A gente faz cada coisa quando está apaixonado... me encontrei nas suas linhas, Roberta.
Beijos!

Flávia disse...

Oi, Rob!

Fico lisonjeada com o link! Linkei também seu Painel de Cortiça, pois não é todo dia que se encontra vida inteligente na Internet...

A gente se encontra, cá e lá.

Beijos e bom fim de semana!

Roberta disse...

Obrigada Flavinha!:-)